Sintoma na criança: atualização do processo constitutivo parental

24/02/2018

A psicanálise com crianças discute, desde os seus primórdios, o estatuto dos pais no atendimento clínico do filho. A influência que exercem na constituição psíquica do filho é evidente e por muito tempo questionou-se, dentro das diferentes perspectivas da psicanálise, a necessidade de se escutar o que os pais têm a dizer a respeito da sintomatologia apresentada pelo filho. Neste artigo fazemos uma discussão teórica a respeito do que o sintoma do filho aciona e atualiza do processo constitutivo parental. Neste aspecto aborda a possibilidade de que alguns sintomas da criança funcionem como estruturante psíquico dos pais. Pretende-se, com isso, situar o sofrimento dos pais frente à demanda de atendimento do filho e frente à sintomatologia apresentada por ele.

A transferência desempenha outro papel já que os progenitores reais seguem presentes. As resistências internas que combatemos no adulto estão substituídas na criança, na maioria das vezes, por dificuldades externas. Quando os pais se colocam como portadores da resistência, frequentemente o objetivo da análise se encontra em perigo e por isso é necessário integrar à análise da criança alguma influência analítica sobre seus progenitores (Freud, 1932/1990: 137).

A relação entre transferência e resistência é recolocada, pois, no caso da escuta à criança; a resistência está relacionada aos pais, sendo reconhecida na época como algo externo ao trabalho analítico propriamente dito. No intuito de dar conta dessa resistência, uma das adaptações annafreudianas sobre a técnica se refere à necessidade de reservar algum espaço próximo para trabalhar com os pais da criança. Além disso, já que não era a criança que demandava atendimento, Anna Freud (1971) propunha um atendimento prévio a partir do qual seriam trabalhadas a demanda de atendimento e a consciência da doença, visto que a criança, para a autora, não a tem.

Anna Freud (1971) acreditava que as crianças tinham dificuldades em estabelecer uma relação transferencial com o analista visto que os pais da realidade tinham, ainda, uma influência muito forte, ou seja, o pequeno paciente não poderia reeditar seus vínculos amorosos porque a primeira edição desses vínculos não estaria esgotada. Esta influência dos pais relacionava-se, então, a questões ambientais (dependência efetiva dos pais) e a questões intrapsíquicas (a não internalização completa das figuras parentais). Nesse sentido, a dificuldade em empreender uma análise com uma criança se refere ao fato de que as forças de enfrentamento de uma neurose são, para a criança, internas e externas pela fraqueza superegoica característica da infância.

Zornig (2000) aponta que na corrente annafreudiana da psicanálise com crianças há um privilegio de uma vertente pedagógica através de orientações aos pais. Outra maneira encontrada para driblar esta incapacidade da criança é propor um trabalho prévio à entrada em análise, no qual se abordaria a consciência da doença, o desejo de cura e a confiança no analista, propiciando a criação de uma transferência positiva (única desejável para o trabalho com a criança). Anna Freud (1971) diz que o objetivo do tratamento tinha uma dupla vertente: uma psicanalítica propriamente dita, pela liberação sintomática, e a outra pedagógica, que visava ensinar a criança a lidar com sua vida instintiva. Nesse aspecto, Anna Freud, segundo Zornig (2000), privilegiava o trabalho com os pais da realidade.

Melanie Klein (1964) apostava na capacidade transferencial da criança e prescindia da presença dos pais na análise com o pequeno paciente. Tendo feito modificações teórico-clínicas, considera que a criança passa por um Édipo precoce, o que possibilita o trabalho com os pais introjetados, da fantasia. Acreditava nos benefícios, para a criança, de empreender uma análise na tenra idade. Zornig (2000), analisando a obra kleiniana, afirma que na análise com a criança se trabalhava com os pais da fantasia e, nesse sentido, não havia questionamentos em relação ao estabelecimento da relação transferencial com o analista. Como o aparelho psíquico está, desde a origem da criança, constituído pelos mecanismos introjetivos e projetivos, trata-se de trabalhar analiticamente com as imagos parentais internalizadas e as fantasias da criança. Nesta concepção, segundo a autora, não há motivo para o trabalho com os pais da realidade. Para Klein (1964), a análise de uma criança deveria prescindir de toda vinculação com os pais, com sua história ou com qualquer obstáculo concreto que fosse alheio à situação analítica.

Poulain-Colombier (1998) lembra que em 1932 houve uma discordância entre Burlingham e Melanie Klein sobre a influência das fantasias parentais no tratamento dos filhos que abriria uma terceira possibilidade. Burlingham (1935: 71) passou a enfatizar a necessidade de análise simultânea, com diferentes analistas, para a criança e a mãe, pela dificuldade, para a mãe, de suportar a análise de seu filho, uma vez que "a inter-relação entre pais e criança está marcada por poderosas forças inconscientes". Este trabalho foi iniciado porque se percebeu que, em muitos casos, o tratamento da criança não progride pela psicopatologia do(s) progenitor(es), que interfere no andamento da análise da criança.

Para Anna Freud (1971), caso o sintoma e/ou o conflito apresentado pela criança esteja ancorado não somente na sua personalidade, mas também sustentado pelas forças emocionais dos pais, a ação terapêutica analítica pode se tornar lenta ou mesmo impossível. Para a autora, nesses casos em que a interferência da psicopatologia parental na análise da criança é excessiva, a análise simultânea dos pais e da criança possibilita que as interpretações oferecidas à criança tornem-se mais eficazes, já que as posições libidinais regressivas são deixadas de lado na mesma proporção do abandono da posição psicopatológica parental. Entretanto, nos casos nos quais as fantasias maternas conduzem a determinada ação e a criança é utilizada na satisfação das necessidades amorosas ou hostis da mãe, a análise dificilmente consegue libertar a criança do efeito dessa interferência materna (Burlingham, 1935).

O surgimento do movimento lacaniano com sua concepção de "sujeito" fez surgir uma nova polaridade no campo da psicanálise com crianças. Desta vez, segundo Rosemberg (2002), esta polaridade coloca-se entre a teoria da constituição subjetiva, sustentada por Lacan, e a teoria do sujeito constituído, sustentada por Klein. A partir dos questionamentos lacanianos a respeito da formação do sujeito, o lugar dos pais na clínica passa a ser privilegiado não como orientação pedagógica, mas como possibilidade de trabalho.

Bleichmar (1988), fazendo uma retrospectiva a respeito da psicanálise com criança, colocou que nos anos setenta, pelo mau entendimento da concepção lacaniana sobre a constituição do sujeito, a criança, na cena analítica, ficava reduzida à figura de depositário das neuroses parentais. A possível sintomatologia neurótica ou psicótica da criança não lhe pertencia, era da rede relacional preexistente ao seu surgimento. Este entendimento teve como consequência o oferecimento de longas entrevistas preliminares com os pais, objetivando, muitas vezes, uma psicoterapia de casal em detrimento do atendimento da criança. Nesse sentido, para a autora, a estrutura psíquica da criança reduziu-se a um interacionismo muito próximo das propostas terapêuticas sistêmicas. Este movimento fez com que se perdesse a especificidade clínica da psicanálise de crianças conquistada pelos kleinianos.

Nesta direção, Bleichmar (1988) lembra do escrito de Mannoni (1976: 7) no qual a autora inaugura a obra com a frase "a psicanálise de crianças é psicanálise" em uma tentativa de fazer retornar à psicanálise o trabalho com a criança. Zornig (2000) observa que uma leitura precipitada de Mannoni poderia nos levar a pensar que há uma valorização da dinâmica familiar em detrimento da questão individual da criança. Cabe lembrar que Mannoni (1976) se refere à necessidade de compreender a história da linhagem parental no sentido de se estabelecer o lugar que essa criança em especial ocupa nessa cadeia geracional: "Quando escutamos o discurso parental, o fazemos porque isto explica aquilo que, na criança, não pode ser nomeado" (Mannoni, 1976: 9).

Zornig (2000) aponta que as implicações da teoria lacaniana e de autores como Manonni (1976) e Dolto (1985) para a clínica com crianças ocorrem numa

dupla vertente: o discurso parental é privilegiado não como possibilidade de informar (anamnese) e discorrer sobre a história da criança, mas sim como desvendamento da posição que a criança ocupa na fantasia parental, enquanto cabe ao analista suportar a transferência em sua dupla faceta: a dos pais e a da criança (Zornig, 2000: 127).

Lacan (1971) refere que seria função do analista se opor a que o corpo da criança responda como objeto amaterno. Zornig (2000) aponta que para que a criança não seja tomada como objeto parcial na fantasia de um dos pais o analista deve se colocar como mediador entre a criança e o desejo da mãe. Bergès e Balbo (2010) discutem sobre a necessidade de escutar os pais das crianças que se encontram em psicoterapia ou em psicanálise. Em se tratando de atendimento psicanalítico, referem ser necessário escutar os pais no intuito de que a transferência que eles constituem com o psicanalista não seja ignorada. Além disso, colocam ser importante o alívio da preocupação dos pais colocados no lugar terceiro ao permitir instaurar uma relação transitivista entre os pais e a criança. A instauração desta relação objetiva que a criança seja liberada do engodo narcísico e possa vir a falar em nome próprio.

Para além das divergências espistemológicas a respeito da concepção de sujeito, existe uma concordância clínica a respeito da dificuldade do trabalho com os pais e da alta taxa de abandono das psicoterapias com crianças. O estudo feito por Nunes, Silvares, Maturano e Oliveira (2009) aponta alta taxa de abandono de psicoterapia de crianças. As autoras ainda colocam a dificuldade de fazer levantamentos mais precisos nesta área vista a dificuldade de acesso aos prontuários ou mesmo falha no preenchimento dos mesmos. Além disso, Deakin e Nunes (2008) apontam para a escassez de pesquisas em psicoterapia psicanalítica com crianças, o que dificulta pensar a respeito dos efeitos na constituição subjetiva das crianças que se submetem a esse tipo de tratamento. Mesmo no intuito de amenizar o abandono dos tratamentos organizando o acompanhamento a pais nas diferentes modalidades (individual, grupo, conjunta...), percebe-se que, apesar dessas tentativas, muitos atendimentos fracassam. Desde os primeiros trabalhos psicanalíticos com crianças a questão dos pais é colocada em cena. Apesar de alguns pais conseguirem suportar a análise do filho, frequentemente o que ocorre é uma interrupção brusca no atendimento.

É evidente que as diferentes concepções teóricas entendem ser o lugar dos pais nos atendimentos dos filhos algo que precisa ser mais investigado, dadas a dependência da criança em relação aos pais e as inter-relações que se estabelecem entre os sintomas trazidos pelas crianças e o sofrimento psíquico que isso acarreta nos pais. Percebemos em profissionais que trabalham com crianças a angústia despertada quando uma criança em tratamento, cujo sofrimento está sendo amenizado, é retirada do atendimento por resistência dos pais frente à cura do filho. Assim, partindo da concepção lacaniana de constituição do sujeito, veremos como o infantil parental pode se atualizar no sintoma do filho. Para isto, abordaremos alguns conceitos que permitam entender o lugar que a criança ocupa na fantasmática dos pais.